RESENHA DO FILME “O PREÇO DO AMANHÃ/ IN TIME” (ESTADOS UNIDOS/2011): ANÁLISE SOBRE O CONTROLE DA VIDA A PARTIR DE UMA PERSPECTIVA DISTÓPICA DE UMA SOCIEDADE DE CONTROLE

We live in capitalism. Its power seems inescapable – but then, so did the divine right of kings. Any human power can be resisted and changed by human beings. Resistance and change often begin in art. Very often in our art, the art of words.

Eneida Maria dos Santos*

Flora Oliveira **

ATENÇÃO: CONTÉM SPOILERS!

O filme “O preço do amanhã” (In Time) é uma ficção científica distópica com roteiro de Andrew Niccol que conta com o casal de protagonistas Justin Timberlake (Will Salas) e Amanda Seyfried (Sylvia Weis). O roteirista é autor de outras obras do mesmo gênero, como os mundialmente conhecidos “Gattaca”, “O show de Truman” e “Simone”.

A obra narra a vida e sina de uma sociedade dividida em zonas, havendo várias divisões de cenas voltadas para as zonas do gueto e de New Greenwich. A primeira cena do filme mostra o despertar de uma família que reside no gueto, em que Will Salas planeja trabalhar mais horas naquele dia para conseguir ofertar à sua mãe um presente de aniversário.

A dualidade trabalho e inflação é protagonizada no filme, a exemplo deste mesmo personagem que buscou trabalhar mais horas para presentear sua mãe, mas que não recebeu o “tempo” correspondente, sob a justificativa de que o valor da cota havia subido em razão da inflação.

Embora seja uma realidade comum a todos os trabalhadores precários do mundo, o filme inova ao literalmente transformar o dinheiro em unidades de tempo, levando ao limite a expressão “tempo é dinheiro”. O filme mostra cenas de pessoas mortas nas ruas do gueto simplesmente porque não conseguiram mais “tempo de vida” em face das regras de inflação e trabalho impostas por quem controla esse relógio.

A essa altura, o/a leitor/a já consegue identificar qual parte da sociedade controla a outra. A outra zona é marcada pela frase nada empática: “Para que uns sejam imortais, muitos precisam morrer.” É esta a narrativa de New Greenwich, demarcado por pessoas tranquilas, que andam e comem lentamente, que possuem policiamento próprio, pois este atua no controle da desigualdade social, mantendo seguros e livres do roubo de tempo os cidadãos que habitam nesta região.

Para movimentar o filme, repleto de cenas de aventura e perseguição, o protagonista Will Salas, após receber uma doação de mais de cem anos de Henry Hamilton, acaba ascendendo à zona de New Greenwich e, ao perceber o porquê os moradores do gueto vivem a ponto de morrer, inicia uma jornada de super-herói, ao objetivar devolver o tempo e, por certo, a vida aos que mantêm New Greenwich tão próspera.

O filme leva à reflexão sobre a relação entre poder, controle, vigilância e a existência de instituições que se responsabilizam pela manutenção da “ordem” previamente estabelecida pelos grupos dominantes, a fim de assegurar a perpetuação do poder nas mãos de poucos às custas da vulnerabilidade de outros.

A categorização de pessoas, visando classificar quem é superior a quem, é estratégia ideológica do racismo, criando-se um “contínuo biológico a que se dirige o biopoder” (FOUCAULT, 2010, p. 214). Segundo Foucault (2010, p. 215), “a raça, o racismo, é a condição de aceitabilidade de tirar a vida numa sociedade de normalização”.

O biopoder seria uma nova técnica de poder, mais sofisticada que aquelas reproduzidas por meio da soberania e de uma sociedade de disciplina. Pela teoria da soberania, o direito de viver e de morrer pertencia ao poder soberano, submetendo-se a vida dos súditos à sua vontade. Já na teoria do poder disciplinar, o foco é o corpo individual, o qual deveria estar alinhado à produtividade, disciplina e alocação geográfica, mediante “um sistema de vigilância, de hierarquias, de inspeções, de escriturações, de relatórios” (FOUCAULT, 2010, p. 203), de modo a se obter o maior proveito possível.

Enquanto a sociedade de disciplina concentra-se no corpo do indivíduo, a do biopoder governa-se ao coletivo, à multiplicidade dos homens, “em direção não do homem-corpo, mas do homem-espécie” (FOUCAULT, 2010, p. 204). Assim, este biopoder vale-se de técnicas de controle de reprodução, natalidade, morbidade, estatística, deslocamento, previsões e dentre outras que o auxiliam a ter um poder total sobre a população que permite que se determine quem deve se fazer viver e quem deve se deixar morrer (FOUCAULT, 2010, p. 204-208).

No filme, retrata-se o cotidiano de residentes do gueto que se expõem constantemente a situações em que estão diante da morte porque não possuem tempo suficiente para continuar a viver. A sociedade foi arquitetada sob uma estrutura em que os que têm pouco tempo/dinheiro vivem em guetos, valendo-se do trabalho, doação e empréstimos para sobreviver, sendo predeterminados a deixarem morrer.

Segundo Achille Mbembe (2018, p. 50), a “santuarização do território” “tornou-se uma questão biopolítica”, na qual se enaltecem as fronteiras de modo a se demarcar quais territórios podem ser ocupados e por quem (MBEMBE, 2021, p. 78). No longa-metragem, fica nítido que morar e transitar em New Greenwich é um privilégio que não deve ser acessível a todos. Não é à toa que a polícia que controla o tempo tem como uma de suas responsabilidades manter a “segurança” daquele lugar sagrado cujas fronteiras são fortemente delimitadas e vigiadas pelas instituições, de modo a não sofrerem a ameaça daqueles rotulados como seus inimigos.

A construção de cidades inteligentes e a transformação da vida em uma era digital não são capazes de reduzir mecanismos de exclusão e exploração, porque aquelas foram desenhadas por um regime capitalista de modelo patriarcal, heteronormativo de supremacia branca que reproduz práticas de desigualdade por meio de dispositivos tecnológicos (SADOWSKI, 2020, p. 50-51).

É importante ainda destacar que o filme retrata a realidade econômica na qual o sistema financeiro tem um papel regulador e de manutenção do status quo. Na obra cinematográfica, é estampada a realidade daqueles que não têm tempo para continuar a viver e buscam ajuda nos bancos, para que lhes forneçam empréstimo, garantindo ao menos mais um dia de vida.

Na obra a taxa de juros aumenta à medida que se passa a ter mais dinheiro circulante entre aqueles que residem no gueto. Isto foi possível graças às doações realizadas por Will Sallas e Sylvia Weis, ao se apossarem de montantes capturados do banco do seu pai. Majorando-se a taxa de juros e aumentando-se o preço dos serviços, reequilibra-se o mercado, diminuindo-se o tempo existente naquela região e entre aqueles que devem permanecer com pouco tempo em suas mãos. O sistema bancário funciona como auto regulador do mercado, garantindo a dinâmica de que os mais abastados continuem lucrando e os desprivilegiados tenham dificuldade de manter o mínimo para sobreviver.

Jathan Sadowski (2020, p. 167-172), ao refletir sobre os fins do capitalismo, sugere a readaptação dos aspectos de criação coletiva e individual a partir do uso das tecnologias, para que não sirva unicamente para a extração de valor, a exemplo do que ocorreu na Revolução industrial. E mais, que possamos reavaliar criticamente o modo como usamos a tecnologia para perceber o quanto ela nos transforma.

A ficção científica explora a distinção de classes e os aparatos sociais, políticos e econômicos existentes que gerenciam silenciosamente a sociedade de forma que o poder e o dinheiro permaneçam com aqueles que ditam as regras de regulação social. Demonstra-se no filme a política neoliberal que inclui os mais necessitados por meio da finança e que “mais que fornecer serviços, é preciso distribuir dinheiro” (LAZZARATO, 2019, p. 31), transformando os menos abastados em “homens endividados” (LAZZARATO, 2019, p. 28).

Ao ser indagado em uma cena do filme se “seria roubo roubar o que foi roubado”, o longa-metragem propõe uma reflexão sobre a sociedade de controle a que somos reféns, a ponto de não dominarmos nosso tempo/vida em troca dos dados que estão a comandar nossos atos voluntários e decisões mais importantes.

Conclui-se que o filme, embora com uma proposta distópica, aproxima-se bastante da sociedade desigual que marca o Brasil e o mundo e da influência do capitalismo digital em nossas decisões e anseios. A obra cinematográfica leva ao despertar de uma consciência crítica sobre a sociedade de vigilância estudada por Foucault e presente nas mais importantes decisões do Vale do Silício: primeiro controlar os dados para assim controlar as pessoas.

[1] Disponível em: https://www.theguardian.com/books/2014/nov/20/ursula-k-le-guin-national-book-awards-speech#:~:text=We%20live%20in%20capitalism%2C%20its,art%2C%20the%20art%20of%20words. Acesso em: 12 maio 2022.

* Mestre em Direito pelo Programa de Pós-Graduação da Faculdade Nacional de Direito da UFRJ. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa TRAB21. Procuradora Federal.

**Mestre em Direito pela Universidade Católica de Pernambuco.Doutoranda no Programa de Pós-Graduação da Universidade Católica de Pernambuco, com doutorado Sanduíche na Universitat de València, Espanha.Professora Universitária. Advogada Trabalhista

REFERÊNCIAS:     

FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade: curso no Collège de France. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010.

LAZZARATO, Maurizio. Fascismo ou revolução. O neoliberalismo em chave estratégica. São Paulo: n-1 edições, 2019.

MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. São Paulo: n-1 edições, 2018.

MBEMBE, Achille. Brutalismo. São Paulo: n-1 edições, 2021.

SADOWSKI, Jathan. How digital capitalism is extracting data, controlling our lives, and taking over the world. Massachusetts: MIT Press, 2020.

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